domingo, 17 de janeiro de 2021

Jogada de Mestre

Enfim entramos em 2021 e, agora mais do que nunca, o jogo político para as eleições do ano que vem vai se desenhando. E hoje, dia 17 de janeiro de 2021, é o dia em que a primeira pessoa foi vacinada contra o coronavírus no Brasil. As consequências políticas disso a gente vai debater aqui.

Quem mais endossou uma das duas vacinas autorizadas pela ANVISA para uso emergencial no Brasil, foi João Doria. O governador de São Paulo não só investiu e elaborou, através de secretários e servidores, a logística e demais adendos para que houvesse uma vacina, mas endossou publicamente todo o trabalho que estava sendo feito para obtenção da vacina. Como nosso Presidente politiza tudo e com a vacina não seria diferente, Doria também resolveu entrar no jogo. E venceu.

Ao antagonizar com Bolsonaro, Doria tinha condições econômicas, administrativas e operacionais de produzir o imunizante e vacinar a população de São Paulo. E talvez não só de São Paulo. Aproveitando-se disso, o governador investiu pesado para que a publicidade da vacina alcançasse territórios além de São Paulo, o projetando politicamente. Projetando a imagem de que foi ele quem conseguiu a vacina. Ou seja, foi ele que "trabalhou pelo povo".

Tudo foi milimetricamente calculado. A escolha da primeira pessoa a ser vacinada é prova disso. Negra, mulher, servidora pública da área de saúde. Só aí já há comunicação com diversos setores da sociedade tão afetados em 2020 por simpatizantes do atual Governo Federal e, por vezes, pelo próprio. Além destas consequências político-sociais, há também as externas, como um aceno para a China (país que nosso Governo faz questão de manter uma relação ríspida), visto que a parceria do Instituto Butantan é com a Sinovac Biotech, empresa chinesa e sim, também para os EUA, que terá um governo democrata, opositor de Bolsonaro, a partir do dia 20 de janeiro de 2021. Ou seja, as duas maiores potências econômicas do mundo. E as consequências vão além.

O Ministro da Saúde, devido à briga política, afirmou na coletiva em que fez também no dia de hoje que Doria feriu a lei e que medidas judiciais a fim de fazer uma requisição administrativa (que é, a grosso modo, quando o Estado "pega" algo a fim de suprir o interesse público) poderão ser tomadas. E daí pode haver outras consequências, visto que o Ministério da Saúde firmou parceria com o Instituto Butantan, portanto, seria ilógica uma requisição administrativa. Tal medida pode, novamente, soar negativamente para Bolsonaro. Poderá ser vista como se o Governo Federal estivesse tentando atrapalhar a vacinação, quando, na verdade, quer (também) roubar o protagonismo, coisa que é improvável, visto que a imprensa já noticiou e publicou o vídeo em que a primeira vacina é aplicada em uma cidadã brasileira e Doria estava ao lado dela. Além do mais, havendo uma quebra da parceria pelo Ministério da Saúde com o Butantan, Doria então poderia comercializar a vacina para suprir municípios e estados. Ou seja, é difícil que o Governo Federal não perca essa.

Na realidade, essa batalha política já foi perdida por Bolsonaro. Passou meses refutando a vacina, afirmou que não compraria, porém não negociou nenhuma outra, fez o que este governo faz: ficou inerte. Não há espaço vazio na política, e esse deixado pelo Governo Federal está sendo preenchido por João Doria. Eu não gostaria que realmente saíssemos do atual governo para um possível governo Doria, acredito em outras opções, porém é inegável que ele soube jogar muito bem e captar mais ainda os holofotes para si. Tornou-se, a partir de hoje, um dos principais ou até o principal rival de Bolsonaro em 2022. A vacina era algo esperado e desejado até mesmo por uma parcela de eleitores e apoiadores de Bolsonaro. A inércia do Governo Federal foi percebida e Doria se sobressaiu suprindo aquilo que deveria ter sido feito pelo Presidente e seus ministros.

O único possível trunfo que Bolsonaro poderá tirar desta batalha, será uma provável ação no STF quanto à requisição por parte do Governo Federal das vacinas produzidas por SP, e uma esperada negativa da suprema côrte, reforçando então a falácia da ala governista e ideológica de que o STF "não deixa o Bolsonaro trabalhar".

No mais, foi uma batalha perdida, uma consolidação de Doria como possível candidato em 2022 e talvez como maior antagonista de Bolsonaro, que pode mudar o rumo do pleito do ano seguinte, sendo este ainda uma incerteza. Caso continue trabalhando da mesma forma, há reais chances de Doria se consagrar Presidente da República. Porém, aguardemos. Ainda há muito o que acontecer neste e no ano que vem.


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A linha tênue entre o fatalismo de ocasião e o negacionsimo


Em meio a discursos aparentemente antagônicos, é possível enxergarmos convergências de finalidade quando o assunto é burlar medidas de distanciamento e prevenção ao coronavírus. Meio esquisito começar um texto nestes termos, mas você vai entender.

Existe uma linha divisória imaginária entre negacionistas e fatalistas de ocasião. Uma linha tênue, como você pode já pode imaginar. Mas antes, vamos a alguns esclarecimentos: fatalistas de ocasião são aqueles que aderem a movimentos a favor de vítimas de determinado acontecimento ou de causas humanitárias (sejam acontecimentos de violências, acidentes ou doenças), mas que têm comportamentos contrários àquilo que pregam. Exemplos atuais para clarear: o jogador Neymar (que já gravou vídeo aplaudindo profissionais de saúde) e agora estaria organizando uma suposta festa de réveillon para 300 pessoas, ou o influenciador Felipe Neto, que tanto pregou o distanciamento social e as medidas de prevenção à covid-19, porém foi filmado em um jogo de futebol com amigos, além de outras "celebridades" que tiveram comportamentos semelhantes. Ou seja, há uma aparente aderência à dor alheia, a orientações de autoridades sanitárias, reconhecimento de profissionais da área de saúde, etc, porém também há, estranhamente, comportamentos na vida prática que são contrários a tudo isso que é reverberado. Comportamentos que vão contra tais orientações, recomendações, medidas de segurança, o que não faria sentido vindo de quem prega exatamente que isto não seja feito. Sim, você pensou em "faça o que eu diga, não faça o que eu faço".

Então seria possível traçar um paralelo entre o negacionismo científico e o fatalismo de ocasião? Tentaremos (a grosso modo).

O ponto de convergência entre ambos seria a finalidade. O fatalista de ocasião não nega o conhecimento científico, nem mesmo o refuta, pelo contrário, o divulga, endossa, dá o seu devido crédito. O negacionista, contrariamente, elenca teorias conspiratórias para colocar em xeque aquilo que tem comprovação fática, científica. Ele se apoia em tais teorias para descumprir recomendações sanitárias, administração de determinados fármacos ou mesmo tomar imunizantes para determinada doença, para contestar a ciência e agir por suas próprias medidas, geralmente baseadas em achismos. Ou seja, o negacionista assume que não reconhece o conhecimento científico como conhecimento de fato (meio macabro dizer isso em pleno 2020, mas está acontecendo). Já o fatalista de ocasião tem o comportamento oposto: endossa a ciência, prega seus conhecimentos, porém por vezes (sem generalizar), burla tais regras que tanto brada a todos e faz o contrário daquilo que seria sua convicção, em tese.

Ou seja, na prática, temos dois comportamentos idênticos que se dão por meios distintos. Um renega o conhecimento e, portanto, se comporta de forma contrária a toda recomendação científica de prevenção a um vírus, por exemplo. O outro refuta o negacionista e estimula os comportamentos recomendados pela ciência, porém, quando é conveniente, trai aquilo que toma por princípio em certa ocasião, para benefício próprio.
Nenhum dos dois é exemplo, e tais comportamentos maculam ainda mais as tentativas da ciência de salvar vidas, pois no final é isso que se busca.

O fatalista de ocasião prejudica ainda mais quem o toma como referência, quando se comporta de maneira contrária àquilo que tanto pede para que outros façam, "criminalizando" tanto quem faz o oposto daquilo que pede o conhecimento científico e assim, massificando ainda mais uma descrença sociopolítica em seus seguidores, admiradores. Afinal, "o exemplo deve vir de cima". Pouco adianta criticar figuras políticas e ter um comportamento semelhante a elas. Oposição se faz também, e principalmente, quando não há ninguém te olhando. Se for só para ser discurso, não é oposição, é autopromoção.

Sabemos que, infelizmente, muitos se aproveitam de eventos como essa pandemia para se projetar, seja culturalmente, politicamente, etc. Seja com um discurso negacionista, contra a ciência (que seria um discurso contra o "estabilishment" e um suposto controle que ele quer exercer sobre todos para implantar algo que nem mesmo os negacionistas sabem explicar direito o que é) ou um discurso pró-ciência, se colocando como norte para aqueles que desejam se informar e se opor aos negacionistas, derrubar as falácias em cima da ciência e orientar a população ao recomendado pelos especialistas.

Ou seja, um evento devastador como esse que estamos vivendo, também é palco para quem deseja entrar no picadeiro político-social e assim se projetar de alguma forma. O oportunismo que ignora vidas perdidas e se dá no discurso bonito, em lives nas redes sociais com pompa intelectualizada e análises muitas vezes rasas (mas que agradam os ouvidos de muitos), se mostra na prática e assim reflete não só a nossa sociedade bem como reforça o estereótipo de que o brasileiro é "desse jeito e não irá mudar", que não adianta votar, impor restrições, fazer leis, desenvolver estudos, ter regras de maneira geral. E talvez esteja correto, até certo ponto. Talvez haja no brasileiro uma certa letargia fática, onde o conformismo com certas questões tomou conta e normalizamos o anormal, o absurdo. Interessa mais tomar conta dos comportamentos cotidianos daqueles que estão em voga para fazer um julgamento moral do que se debruçar e compreender questões um pouco mais complexas.

É péssimo ver fatalistas de ocasião fazendo exatamente o contrário do que pregaram para seu público. Pior ainda é ver negacionistas pegando tais comportamento e apontando-os como exemplos de hipocrisia, reforçando seu próprio discurso e enfraquecendo ainda mais o conhecimento científico. Transformando tais exceções (porque sim, esses comportamentos são exceções) em regra, como se aqueles que aderissem às recomendações científicas, na realidade, fossem iguais aos negacionistas.


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Precatórios, Guedes e um programa de renda

É curioso observar o esforço de governos para se manterem no poder. A partir da posição que ocupam, mudam vidas, rumos, negócios, enfim, interferem em tantos e tantos pontos básicos e não básicos da vida em sociedade. Hoje o desprazer foi o Ministro da Economia dizer que "há uma indústria de precatórios no Brasil". Eu não me contive (de início pareceu-me uma piada, de verdade), portanto vim "falar" sobre o tema e elucidar questões mínimas.

Por que não temos uma indústria de precatórios no Brasil? Aliás, o que são precatórios? Os precatórios estão previstos no artigo 100 da Constituição Federal. A grosso modo, são como uma fila de espera para que as pessoas que não receberam valores que o Estado deveria pagar, e por isso acionaram a justiça, tenham a garantia de receber. Veja bem, garantia de receber, não o valor em mãos. "Há uma indústria de precatórios no Brasil" soar como piada, se dá pelo fato de imaginar que o próprio Estado estaria dando calote e não efetuando seus pagamentos com a finalidade de fomentar um movimento de ações no Poder Judiciário (gerando mais custo para o próprio Estado) a fim de que os autores das referidas ações ganhem e recebam os créditos... Que são devidos e pagos pelo Estado! Ou seja, direitos que o próprio Estado não pagou, por quaisquer motivos.

Porém o motivo para tais devaneios é claro, lógico e se expressa na prática da vida política, que não vem de hoje.
O governo Bolsonaro não tem lá fortes alicerces políticos. Não à toa, rifou cargos para o chamado centrão, chegando a criar ministérios, acenando positivamente para aqueles que sempre disse repudiar. A necessidade de se manter no poder falou mais alto e agora não é diferente. Por mais que as últimas pesquisas sinalizem 40% de aprovação deste governo, isso é passageiro e o governo sabe disso. Assim que o auxílio acabar, a realidade vai bater à porta dos brasileiros novamente. O mercado não estará recuperado a ponto de ter uma empregabilidade suficiente para que a maior parte da população se mantenha com o mínimo de dignidade (ou seja, não haverá empregos) e pronto, a insatisfação com o governo vai decolar. Sabendo disso, e também baseado em experiências de governos passados, Bolsonaro agora quer tentar o caminho "mais fácil": um programa social que coloque dinheiro na mão dos mais pobres, que são o maior número de votos do país. Deu certo com governos passados, por que não daria com ele?

A fórmula parece simples, porém não é. Ainda há uma pandemia, a economia está em frangalhos e as perspectivas são todas de piora e exatamente por tais fatores que não há de onde tirar numerário para um programa de renda. Sim, não há dinheiro para isto. A tática era tentar tirar dos precatórios, dificultando pagamento de dívidas do Estado e do FUNDEB. Ambas propostas vistas com muita rejeição pelo Legislativo Federal. E novamente, tudo pela política, para se manter no poder, nada além. Não há projeto econômico por trás do tal programa, não há motivo nem mesmo lógica para criar algo que irá onerar mais ainda o Estado. Há, somente, sede de permanecer no poder.

O Brasil não vai bem, ele só tenta disfarçar. O nível de desemprego subiu, a administração da pandemia foi desastrosa (somo uns dos países com o maior número de mortos), a (falta de) política ambiental já prejudica negócios internos e externos, temos uma marca histórica de fuga de capital do país e se eu fosse citar mais problemas, dariam algumas postagens. A última jogada é a medida mais "populista" possível: "dar" dinheiro ao povo com a marca deste governo. O Bolsa Família soa petista, não há lucro político para esse governo com tal programa. A necessidade deles é um programa que, de alguma forma, expresse alguma identidade deste governo.
Não temos nem 2 anos de da atual administração, e o governo já está tomando medidas um tanto "desesperadas" para inflar uma popularidade que pouco tem e tentar uma reeleição em 2022. Desidratar a Lava-Jato também é uma tática, mas esse é outro assunto.

Fato é que, caso haja viabilidade do tal programa de renda, este pode ser a estabilização política desse governo ou o início do seu fim. Não há sustentação com a realidade para tantos desmontes e políticas prejudiciais em tantas áreas no país, somente para agradar certos grupos. O programa de renda é um tiro no escuro. Não garante uma reeleição, mas também não tira a possibilidade. Enquanto isso, seguimos ouvindo e lendo tais absurdos, de que as queimadas são ações de terceiros e que o governo estaria tomando ações eficazes, que há indústria de precatórios, perseguição a parlamentares, governantes e outras pessoas por discordarem do governo, etc. Fiquem atentos, tudo isso será cobrado no futuro.
Um governo inconsequente esquece que o amanhã sempre vem e que a realidade se impõe. Sempre.


 

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Os Degraus de Bolsonaro


 Muitos afirmam que a eleição de Bolsonaro para a Presidência foi o maior “estelionato eleitoral” do país. Afirmação feita no sentido de ele ter prometido fazer algo diferente do governante comum, mas ter atitudes similares, voltadas para si e seu projeto de poder no serviço público, ocupando cargos eletivos (agora, na Presidência da Republica).

Nada que seja surpresa, visto que em seus discursos durante sua vida política e até mesmo em sua conduta como militar, ele já deixava clara sua intenção de conseguir uma ascensão econômica através do trabalho que estivesse exercendo, seja no Exército, como parlamentar, etc.

E uma tática mais que perceptível nesse processo de ascensão, é o uso de “degraus políticos” que o Presidente fez e permanece fazendo, onde somente ele sobe, porém, reflexamente, acaba criando e expondo possíveis adversários.

Um dos primeiros degraus dessa jornada talvez tenha sido Gustavo Bebianno. Coordenador da campanha eleitoral de Bolsonaro de 2018 e posteriormente Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Bebianno teve uma demissão um tanto confusa e considerada até mesmo covarde, tendo sido o estopim da denúncia do empresário Paulo Marinho contra o senador Flávio Bolsonaro, conforme ele mesmo afirmou. Bolsonaro teria conseguido grande êxito na campanha devido à atuação de Bebianno, e depois de ter chegado ao poder o dispensou, como aquilo que ele mesmo considera suas bases eleitorais: algo de mero uso para alcançar o que quer.

São perceptíveis alguns outros degraus, tanto antes como depois de ser eleito. O discurso antipetista e pró lava-jato foram alguns. Do antipetismo o presidente ainda não se desfez, talvez por ainda não ter precisado. O lavajatismo ele vai desidratando aos poucos. Mas com um interesse específico: enfraquecer uma possível candidatura de Sérgio Moro à Presidência em 2022. Moro pode sim ser um forte adversário, apto a abalar uma reeleição de Bolsonaro. Enfraquecer a Lava-Jato e apontar suas falhas, ressaltando-a como uma operação negativa e não benéfica contra a corrupção, faz parte do jogo eleitoral dele.

Aliás, Sérgio Moro também foi mais um degrau usado na caminhada de Bolsonaro. Talvez o principal. Foi quem colocou seu principal adversário político na cadeia, entoava um discurso anticorrupção e era tido como uma espécie de super ministro. Bolsonaro o usou, até a hora que Moro começou a esbarrar em possíveis ilicitudes da família do Presidente e uma estranha obsessão pelo controle da Polícia Federal do RJ.

Dessa forma, Bolsonaro não apenas deu mais notoriedade a Moro, como também formou um antagonismo perigoso para ele próprio. Moro agora é uma ameaça a seu projeto de poder. Talvez o degrau que tenha custado mais caro a Bolsonaro e que ainda possa cobrar seu maior preço numa futura eleição.

Muito provavelmente o próximo degrau que está com seus dias contados é Paulo Guedes. As atuais divergências do Ministro da Economia com o Presidente são notórias. Guedes já está raspando o fundo da panela, pois sabe que em breve pulará do barco (ou será jogado fora dele). E assim, pode ser mais um possível antagonista de Bolsonaro e também candidato, não à presidência, pela falta de força política, mas se aliando a algum possível candidato (o próprio Sérgio Moro) ou a um governo estadual, etc.

Dessa forma, Bolsonaro segue fazendo uso de movimentos, bandeiras, pessoas, ideias para conseguir se manter. Não lhe importa muito em que acreditar, mas sim o capital político que possa render a ele. O que é perigoso para seu projeto, visto que muitos que saíram de seu governo ganharam força política por antagonizar com o Presidente, tendo ideias de maior receptividade pela sociedade e demonstrando mais empatia e identificação com boa parte do eleitorado. Imaginem uma Chapa de Moro com Mandetta e um Paulo Guedes como possível Ministro. Bolsonaro resistiria?

Talvez seu último reduto, não de degraus, mas de tentativa de estabilidade política, seja o centrão.

O Governo se tornou uma figura dúbia. Muitos não querem vincular sua imagem a ele, porém outros ficam tentados pelo poder, remuneração e notoriedade que poderão ter por fazerem parte dele.

Bolsonaro pensa no agora. No que precisa fazer para se manter. Mas não percebe que, antagonizando com tantos, cria novas possibilidades que ameaçam seu próprio projeto. O tal “bolsonarismo” não dura muito, pois é um movimento auto-destrutivo. Ao mesmo tempo que antagoniza com adversários e até com aliados, dá espaço para que eles ganhem holofotes e se projetem politicamente.


quarta-feira, 10 de junho de 2020

Estamos carentes

Depois de 35 anos de redemocratização, tem-se a impressão de uma latente fragilidade da nossa democracia. Todos os artigos, incisos e alíneas escritos naquele livro promulgado em 05 de outubro de 1988, que buscavam construir uma sociedade “livre, justa e solidária”, parece novamente ser abalada por figuras semelhantes às de 1964.

Entretanto não podemos deixar de reparar em aspectos alimentados por nossa sociedade para que chegássemos a esse ponto. Afinal, a política não se faz sozinha, é necessário todo o movimento social, em termos de cultura, valores e anseios para que se possa definir quem tomará a frente do país. Os rumos políticos, ao contrário do que muitos pensam, não se definem (somente) nas urnas, mas no jantar depois do trabalho, nos almoços de domingo, nas discussões entre amigos e família sobre política e demais ramos e no que a mídia ventila como sendo de importância para o saber coletivo.

Através desses mecanismos e de mais alguns adendos, a sociedade se une, se divide e determina o rumo nos cargos eletivos da Administração Pública do país. E nesse momento nós estamos nos perguntando: quem nos representa?
O Brasil apostou em um político de carreira como chefe de Estado e Governo. Porém, esse não correspondeu aos anseios da maioria depois de ocupar a cadeira presidencial, e agora o país se depara com uma questão que é cruel para o brasileiro: quem nos salvará?

Infelizmente, a política virou um jogo de estrelas, e o que brilhar mais, leva, mesmo que seja um completo despreparado para o serviço. O brasileiro, nas suas conversas e debates, nas impressões sobre o que a mídia reverbera, elege seu mártir, seu salvador, e assim se isenta de qualquer responsabilidade que possa ter na vida pública, como se não fizesse parte da sociedade.

A polarização extrema tomou conta, o ideal de pluralismo político preconizado pela Constituição Federal parece ter se repartido em dois lados que não fazem muito além de apontar os defeitos em seus opositores, sem olhar para si próprios. Nisso, a sociedade agoniza. Figuras que mais prezam pela política que pelo interesse público alimentam a narrativa do “quem vai ganhar” em eleições futuras. A ideia republicana de governo escorre pelo ralo sem que muitos façam o barulho necessário para fechar essa ferida.

Em 16 de abril deste ano, o Ministro da Saúde Henrique Mandetta deixava seu cargo, após o já conhecido desentendimento com o atual Presidente da República. No dia seguinte, devido ao trabalho que fez junto ao citado Ministério, a tag #Mandetta2022 já era vista em publicações em redes sociais. O mesmo ocorreu quando o ex-ministro da justiça Sérgio Moro deixou o Governo. É escancarada a falta de uma representação digna dos valores democráticos do brasileiro. Não há essa figura, há uma sociedade perdida, buscando por um caminho, por alguém que represente o mínimo que seja necessário para se governar e não mais fazer o país prosperar, mas para fazer com que não entremos em queda livre num abismo sem fim.

Há carência de líderes, de representantes que não sejam narcisistas, preocupados com suas carreiras e não com seu país, preocupados em livrar amigos, familiares, de esquemas já conhecidos de captação de verbas públicas, etc. Aquele que demonstre uma honestidade mínima, carisma e identificação com a sociedade e seus problemas e também valores que a maioria considera importantes, ganha o nome entre a # e o 2022. Até lá, veremos essa busca de uma sociedade que não sabe mais o que pensar em um cenário político que agora se reduz a dois lados e não mostra uma alternativa pujante, a ponto de fazer com que digitemos seus números nas urnas.

E o que fica exposto, ao final, é o tamanho da falha em nosso sistema educacional, retratado em escolhas ruins e numa sociedade que se define pelo extremo, e agora padece de alguém minimamente competente para que governe o Brasil que outrora fomos, e hoje sentimos falta, mesmo que à época reclamássemos. Mas isso já é assunto para outro post...

quinta-feira, 28 de maio de 2020

A era das opiniões


O que temos vivenciado nos últimos anos parece ser uma espécie de exclusão (ou desconsideração) de qualquer conhecimento técnico que possa existir, independentemente da área. Não importa mais se alguém é especialista, estudou, dedicou uma vida a alguma causa, estudo, etc. O que parece ter um valor superior a tudo isso é um certo direito à "liberdade de expressão".

Entretanto, não se pode confundir liberdade de expressão com usurpação de conhecimento, de lugar de fala ou termos afins. Impôs-se uma ideia radical que tudo pode ser dito, sem responsabilidade, sem sequer haver algum comprometimento com a realidade. Porém, lembremos: opiniões mudam, os fatos, não.

Esse pressuposto parece básico, entretanto vivemos na época que o óbvio se perdeu, então precisa ser dito. Sob o manto da liberdade de expressão, muitos se aproveitam para mentir, acusar falsamente, caluniar e sim, opinar em assuntos técnicos mesmo sem conhecimento para tanto.

É importante separar liberdade de expressão de conhecimento. Sim, pasme, é importante, em pleno 2020, mostrar tal diferença. Basta lembrarmos que, ainda hoje, pessoas contestam o formato da Terra.

Não há proibição em se expressar. O artigo 5º, inciso IX e o artigo 220 da Constituição garantem a liberdade de expressão, bem como outros postulados também garantem. Mas a regra é clara: não se proíbe aquilo que se quer expressar, contudo quem o faz, arca com a responsabilidade pelo que expressou. Acho estarrecedor ser necessário explicar isso ainda hoje.

O que surgiu nesses últimos tempos foi uma ideia de criminalização da responsabilidade pelo que se diz. O que parece que se quer impor é a liberdade irrestrita. Tal discurso soa perigoso, pois o próprio conceito de liberdade de expressão é subjetivo, cabe a cada um. O que se viu com a recente operação da Polícia Federal contra uma rede de disseminadores de fake news, foi justamente a busca da responsabilização daqueles que usam do brocardo da liberdade de expressão para mentir, difamar, caluniar e passar em muito o limite do citado princípio. Mentir sobre algo e disseminar isso para convencer terceiros de que seja verdade, não é, e nem pode ser considerado liberdade de expressão. A fuga da responsabilidade pelo que se diz, a busca pela impunidade por mentiras que invetam, parece ter se tornado regra para determinados grupos da sociedade.

Para tais pessoas, aparenta que vale a máxima: "se não tenho algo contra você, eu invento".

Estamos aceitando, passivamente, que a verdade possa ser relativizada, que os fatos não são fatos, mas mera questão de opinião. Reduz-se acontecimentos, estudos, dados a pontos de vista. E não, não são.
O maior ataque desses grupos são as ciências humanas. Sim, eles realmente pensam que se trata de uma questão de opinião. Não importa o tempo de estudo, formação, especialização, para eles, a opinião é que vale, mesmo que não tenham conhecimento técnico. E tristemente vejo que não são apenas as ciências humanas que estão sendo vítimas dessa deturpada "liberdade de expressão".

Basta lembrarmos que nosso Presidente aconselha o uso de um medicamento contra o coronavírus, sem ter qualquer formação médica, passando por cima da palavra de dois médicos, e sim, mantendo no pasta da Saúde alguém também sem uma formação médica, tudo para emplacar o remédio (político) que acredita ser uma espécie de cura. E qual base de conhecimento para tal? Nenhuma.

O que falta hoje é o reconhecimento do limite para se opinar, pois se levarmos essa lógica ao extremo, poderíamos muito bem chamar um carpinteiro quando tivéssemos problemas de saúde, um médico quando quisermos processar alguém ou um sociólogo quando o motor do carro parar de funcionar. Mas a realidade é imbatível, ela se impõe, mostra o contrário, mesmo que a distorção da realidade seja aquilo que se vocifera. Ou seja, no fundo, é um ideal hipócrita.

Não há espaço para relativizações de conhecimentos consolidados, mas sim para debates em torno deles. A base para opinar deve vir, necessariamente, carregada com conhecimento, senão perde qualquer valor que se possa atribuir. A liberdade de opinião, bem como qualquer outro direito, tem limites. A exploração deste dogma para inventar, caluniar e cometer delitos, a fim de convencer outros da "verdade" que se deseja, deve sim ser responsabilizada. Não vivemos em um Estado anarquista.

Hoje faz-se mais que necessária a valorização profissional e das ciências, em todos os campos. Faz-se necessária a responsabilização daqueles que usurpam o princípio constitucional da liberdade de expressão para agredir, inventar, caluniar e ocultar a realidade com interesses escusos. Que entoam ideais autoritários, tentando colocar a liberdade de expressão como justificativa. Não, não é.
Faltou-nos bom senso para eleger mais um governo, para perceber que estávamos dando voz aos burros.

A liberdade, assim como qualquer outro direito, não é irrestrita. A responsabilização também é constitucional. Falta às instituições se tornarem, novamente, instituições, para que se faça valer nosso status de Estado.


terça-feira, 26 de maio de 2020

Operações Políticas

Eu faço escolhas dos meus candidatos baseado, basicamente, na lisura deles, visões sobre vários aspectos da sociedade, propostas, dentre outros critérios. O atual governo do RJ não foi minha escolha, nem mesmo seu opositor.

Uma pandemia é prato cheio para aqueles que estão no Poder Público e desejam ganhar uns milhões a mais. Superfaturamento de equipamentos, obras e todas as manobras corriqueiras de políticos aqui no Brasil ganham força com uma situação dessas. Um roubo covarde, como todo roubo.

Mas sempre temos os “mas”. Para mim, é latente a perseguição que o Presidente da República faz no governo carioca pelo fato do Ministério Público estadual investigar e mostrar fortes indícios de crime de um de seus filhos. A ânsia do Presidente em trocar o comando da Polícia Federal SOMENTE no RJ, deixa clara a vontade dele de tentar ter as rédeas de quem pode ser investigado no Estado, excluindo, obviamente, seus familiares.

Curiosamente, após as trocas na Polícia Federal, a mesma pediu arquivamento do inquérito contra Flávio Bolsonaro, sem nem mesmo quebrar os sigilos do mesmo para correta apuração, porém o Ministério Público discordou e a investigação seguiu, o que incomodou o pai do senador.

É importante nos atentarmos para tudo que está acontecendo e não deixar certas cortinas de fumaça ofuscarem nosso olhos. É indiscutível que deve haver investigação sobre esquemas de corrupção por conta da pandemia, do governo de qualquer estado, e condenar quem tiver de ser condenado. Por outro lado, devemos atentar para operações da Polícia Federal que nascem da noite para o dia, com buscas e apreensões contra governos estaduais (principalmente quando se tratar do RJ), e com conhecimento prévio da deputada Carla Zambelli, por exemplo, da base governista. Curiosamente tudo aquilo que o anterior Ministro da Justiça se opunha a fazer. Muitas “coincidências”, não?

Minha aposta aqui é: as próximas vítimas de uma velada perseguição do Presidente a governadores que ele não tem apreço são os governos de São Paulo, Ceará, Maranhão, etc.

Fiquemos atentos, temos alguém que usurpa instituições para emplacar suas ideologias e proteger sua casta, que se utiliza da democracia e de prerrogativas que tem para calar quem se opõe a ele e seus ideais pessoais que projeta na sociedade. Ditaduras também já foram construídas através da democracia. Governantes que protegem “os seus”, temos vastos exemplos. Nada disso é surpresa, o que é necessário agora é prezarmos pelo diferente de tudo isso.

Agora estão sendo construídas narrativas da próxima eleição presidencial. E podem apostar, operações como essa e outras que virão, estarão no discurso político para reeleição. O principal pilar anticorrupção (Sérgio Moro) já pulou do barco, é preciso que o Governo se mostre combativo nesse quesito. Portanto, coisas assim podem começar a aparecer, mas nunca contra o Presidente ou os seus. O que me parece é que agora, tenta-se manchar a imagem de possíveis candidatos para que se garanta uma reeleição do governo atual, por pior que ele seja.


A velha política costuma adquirir novas formas.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Jair parou em 86

Esse Jair mesmo, esse que governa o país. Talvez o título soe, para alguns, meio anacrônico. Talvez você tenha pensado que o correto seria 1964. Porém, não.

O Presidente que temos hoje não é aquele deputado revoltado, que brada discursos de ódio, etc. O que temos é aquele militar, capitão, preso quando escreveu em uma seção da revista Veja, reclamando de baixos salários. Aquele militar que ajudou a organizar a operação Beco Sem Saída, que consistia em explodir bombas em banheiros de um quartel, o que culminou em sua condenação pelo Conselho de Justiça Militar.

Sim, Jair ainda é esse oficial revoltado, que nas palavras de seus superiores á época, tinha uma "excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente".

Jair não progrediu, tentou buscar na política uma saída para corrigir aquilo que julgava como injustiça contra si. Jair crê, ainda, que comunistas programavam tomar o poder no Brasil em meados dos anos 60. Ele ainda está, na cabeça dele, combatendo esses tais comunistas.

Jair vê como perseguição todo o aparato legal o qual seus filhos e ele tem suspeitas de infringir. Vê como perseguição quem fiscaliza esquemas de rachadinha, repasse de verbas de comissionados e todos esses esquemas já conhecidos de deputados do chamado “baixo clero”. Todo e qualquer movimento a fim de corrigir as infrações de Jair à lei, ele chama de perseguição, de comunistas querendo pegá-lo, tomar o poder, etc.

E isso é o pior de tudo. Caso tudo isso fosse jogo político, não seria tão ruim. Veríamos alguém se adequando e trocando o disco certas vezes, para permanecer no jogo, como o Lula que diz frases desastrosas, mas “se desculpa”, pois sabe que isto o mantém em voga. Jair, não. Jair crê, convictamente, em tudo aquilo que elencou como verdade. Em tudo aquilo que elege como verdade, mesmo que não seja.

Estamos à deriva, nas mãos de um capitão conspiracionista, que precisa constantemente de um inimigo para combater, pois perdeu a batalha contra o Exército em 1988. Foi obrigado a engolir a seco o fato de que estava atentando contra a lei na busca por ser uma autoridade, pelo poder puro e simples, conforme descrito pelo coronel Carlos Pellegrino de que ele "tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos". A partir daí, Jair permaneceu a mesma pessoa que é hoje.

Esse é nosso maior perigo. Alguém que está disposto a tudo, inclusive a desrespeitar a Constituição, como o faz corriqueiramente, para sobrepor aquilo que acredita, pois acredita com todo afinco, para impor aquilo que crê como sendo verdade. Aquilo que na prática, não existiu na época, menos ainda existe hoje.

domingo, 11 de março de 2018

Uma geração (quase) perdida


No mundo de hoje não é difícil se sentir deslocado. Com o crescimento da política do "não me importo" fica fácil perceber que algo muito errado aconteceu com as gerações mais jovens que hoje estão aí.

Confesso que por vezes me assusta o tamanho da individualidade alheia e da necessidade de inflar egos que vemos no mundo de hoje. Mais parece que tudo se tornou "aquilo com o que me importo pra mim" do que um mundo mesmo. Portanto, se você, assim como eu se sente meio deslocado por conta dessas mudanças sociais um tanto negativas, esse post é para você.

Uma das coisas mais notáveis é a "regra" do não me importo. Ta aí algo que eu não consigo exercer nem concordar. Fico pensando em qual o benefício que isso deve ter na vida de quem pratica e concluo o exposto acima: necessidade de ego, autoafirmação, individualidade exacerbada e até mesmo narcisismo (por que não?). Talvez outras "regras" dessa nova geração estejam embutidas na regra do não me importo. Parece mesmo que hoje em dia é legal ignorar, menosprezar, colocar o outro como menos, se fazer superior e etc. É uma regra em benefício exclusivamente próprio e bastante sem sentido. É a estranha regra do conquistar sem realmente tentar conquistar. E não nego que ela dê certo. Talvez isso seja o pior de tudo: pessoas que coadunam com isso.

Outro traço que me chama atenção dessa nova geração é a superficialidade das relações e o pouco valor do tempo. Parece que tudo precisa acontecer no momento e pronto. Não existe a ideia de perpetuar algo que não seja material. O valor dos valores se perdeu, o sentido dos mesmos foi esquecido, dando lugar a ideia de que tudo tem que ser meramente passageiro. Todas as relações, tirando as familiares, podem ser platônicas. Viver apenas o momento e pronto. Felizmente ou não fui obrigado a aprender a viver sem expectativas. Isso é bom e ruim. Pois, de um certo modo, ter expectativa é esperar e esperar vem de esperança, portanto, é triste dizer que não se tem expectativa, que em algum ponto a esperança, principalmente nas pessoas, se perdeu. Porém é um modo de vida que auto poupa futuros enganos. É, na verdade, mais seguro. A gente deveria mesmo é ir e quebrar a cara, mas não conseguimos. Precisamos da falta de esperança pra viver, pois almejamos por aquilo ou alguém que se encaixe exatamente nos nossos moldes para preencher essa esperança. E isso é triste, pois pode se tornar uma espera longa, uma espera que talvez nunca chegue.

Esse é o terceiro ponto. A geração que não aprendeu a esperar, em todos os sentidos. Que tudo quer na hora, que tudo precisa agora e que não enxerga o próprio futuro mais, pois não consegue enxergar além de si. É um ciclo de conceitos que se auto interligam. De uma forma meio bizarra, essa geração é a que gosta de machucar, mas também a que aprendeu a se defender, pois no fundo sabe o quanto negativo é aquilo que pratica. Isso pode ser um tanto confuso, mas não difícil de entender. Parando para pensar, os três estão interligados e não tem como estarem separados. Tais conceitos se completam por si.

A conclusão é que vivemos numa sociedade triste. Emocionalmente pobre e egocêntrica. Principalmente as gerações mais jovens. Por um lado evoluíram em alguns quesitos, mas regrediram em outros. Talvez por essas razões eu passei a me sentir ponte, devido a rapidez de como tudo ocorre na vida de hoje, até nas relações humanas. Ou talvez não, pode ser mero carma divino, a cruz que todo mundo precisa carregar.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Caminhos...

Mais um natal, mais um fim de ano, mais datas comerciais. Independente dessas datas, seria interessante percebermos o significado por trás disso tudo.
Muitos falam em reflexões sobre o que fizemos durante o ano, repensar, planejar e bla bla bla... Talvez o que mais importe seja uma auto-reflexão. Sobre quem somos, sobre quem queremos nos tornar e sobre como podemos melhorar e melhorar o mundo que nos cerca. No fim, talvez possa se resumir tudo isso em escolhas de caminhos.

As pessoas não nos encontram por acaso, sempre há algo para ensinar e aprender. Sempre há lições para dar e tirar. E nessa data de natal talvez seja o mais importante que se deve aprender: as lições que tivemos e aquelas que podemos dar aos outros. Repassar aquilo que foi aprendido e acumular novos aprendizados.

Eu acredito que devemos aprender três coisas nessa data e também nessa vida: caridade, gratidão e amor. E dentro de cada uma dessas coisas há outras pequenas lições como perdão, respeito, compaixão, etc.

Caridade está relacionada a todos os níveis. Carnal e espiritual. A caridade deve andar de mãos dadas com outra lição, o amor. Sem este não há caridade. Sem perdão não há caridade. É preciso saber olhar além para que se possa exercer a caridade. Além de orgulhos, estereótipos, materialidade e tudo aquilo que nos coloca nessa posição de humanos consumistas e afins. Ela deve vir de dentro para fora. Deve ser totalmente feita com o coração. Não há outro caminho ou outra forma de se exercer a caridade. Ela deve ser pura, ser por simplesmente ser. Doar por simplesmente doar, sem se esperar nada em troca. É uma das maiores lições que a espiritualidade pode nos ensinar e uma das mais difíceis de se alcançar, porém o exercício da mesma nos torna grandes, valorosos. Nada pode ser mais grandioso do que exercer a caridade. Nada pode derrubar mais alguém que age mal conosco do que nos ver no exercício da caridade. Não só a caridade material, mas a caridade supracitada, aquela que vem de dentro pra fora. Aquela do coração.

A gratidão é outro braço da caridade. Não há como ter caridade sem que haja gratidão. Não somente no sentido de agradecer por tudo ou mesmo em algum sentido mais superficial como esse. Mas sim de conseguir enxergar que, mesmo com os percalços da vida há muito o que se aproveitar e que em todas as situações, por mais que não enxerguemos de cara, sempre ganhamos muito mais que perdemos. Não se trata de otimismo exacerbado, mas sim de ter a capacidade de tirar proveito em cada lição que a vida nos prepara para nos tornarmos pessoas melhores. A gratidão também é isso: é estar grato por estar aqui nessa jornada, em uma jornada de evolução, aprendendo a cada dia, seja com as conquistas ou com as adversidades da vida. Dessa forma exercemos a gratidão. Tirando o melhor proveito de toda a situação que passamos e também agradecendo por ter vivido tais experiências e conseguido evoluir. Sendo grato, as vezes, por somente estar aqui.

Por fim a principal de todas: o amor. Nada seria possível nessa vida se não houvesse o amor. E não se trata do amor entre amantes, do amor de casal. Mas do amor em uma forma abrangente, num todo. Sem esse amor, nem gratidão ou caridade seriam possíveis. Pois para que sejamos gratos e enxerguemos os pontos positivos em cada situação que passamos é necessário que haja amor da nossa parte. E para que possamos nos doar em qualquer forma para alguém ou uma situação também é ainda mais necessário que haja. Sem amor não seria possível que nenhuma lição fosse tirada ou mesmo que fossemos capazes de estender a mão ao próximo. A grande verdade é que sem amor poucas coisas seriam possíveis. Somos movidos por esse sentimento, somado a esperança que um dia poderemos colocá-lo para fora e exercê-lo da maneira como queremos. O que move cada um é isso que temos dentro de nós e não sabemos explicar. Essa talvez seja a grande lição da vida: aprender a lidar com aquilo que nos move mesmo sem saber muito bem o que é, pois não é fácil.

Assim fica então meu feliz natal. Para reflexão profunda e exercício daquilo que somos de melhor. Para que sempre seja possível acharmos nossos caminhos, mesmo perdidos nesse mundo onde tentamos encontrar algum sentido, muitas vezes essas respostas estão bem à nossa frente. Cabe a nós termos capacidade para enxergá-las e maturidade para realizar o exercício de tais valores positivos. Só assim se alcança o máximo que podemos ser.

domingo, 17 de dezembro de 2017

A missão de cada um de nós

Diz-se na espiritualidade que nossos ciclos de vida duram sete anos. Que todas as situações que passamos em sete anos fazem parte de um ciclo até que se comece um novo e assim adiante, até nosso fim. Interessante essa perspectiva visto que muitas coisas na espiritualidade estão relacionadas a sete. O nosso mundo mesmo teve sua criação em sete dias. Mas não estamos aqui para falar especificamente da espiritualidade.

O que ela tem a ver com isso é o que todos nós trazemos e devemos fazer nesse mundo, nessa vida. Aquilo que devemos fazer. Não algo em especial, mas aquilo que devemos realizar ao longo da vida. Nosso papel nessa vida.

Sempre senti, e digo isso com grande pesar, que tenho na minha missão ser uma espécie de braço, de apoio temporário para que as pessoas dêem um passo necessário em suas vidas. Sempre senti que elas vêm até mim com fraquezas, carências, dificuldades. E por algum tempo elas permanecem, até encontrarem o caminho correto e poder seguir em paz. Melhores, subindo algum degrau que faltava e que eu acabei sendo uma espécie de apoio para essa subida.

Isso é bom, mas triste ao mesmo tempo. É duro ver que sua missão aqui é somente ser algo temporário na vida de alguém. Nesse sentido, sempre me senti como um grande observador da vida, que está sempre a olhando e admirando e quando surge alguém que me tire dessa espécie de "platéia" é somente para dar aquela força temporária. Aquele empurrão que essa pessoa precisava para melhorar, evoluir.

Depois disso, parece que volto ao meu lugar de platéia, esperando a próxima pessoa que venha se salvar de alguma forma em mim só para poder melhorar. Isso é quase uma certeza intuitiva que tenho. E é ruim. Não posso dizer que ajudar o próximo seja ruim. Mas digo que ser essa pessoa que tem isso como missão, sim, é bem ruim.

A sensação que mais tenho é como se eu voltasse sempre ao mesmo lugar. Muitas vezes um tanto ferido por ter entendido, sugado e me envolvido nas dores e nas lutas daquela pessoa. É como se eu sempre perdesse uma batalha, saísse sempre cansado, ferido... Esgotado. E a recomposição é penosa. Dura, difícil e pouco benéfica.

Mas entendo que se isso é missão, deve ser cumprido. Se essa foi a reserva divina que tenho, deve ser cumprida. Por mais doloroso que seja, por mais que sempre me recoloque no mesmo lugar onde eu estava antes de toda jornada que alguém inicia comigo, parece que deve ser assim e que nunca irá mudar. Sim, é triste. É triste ser a ponte de alguém, pois é triste ser o que é uma ponte: um lugar de passagem, que evita a queda e que é sempre pisada. Ninguém vive em uma ponte. Ela é solitária, sempre a espera da próxima pessoa que irá pisa-la, se sentir segura para não cair, mas no fim atravessa e chega ao outro lado. Outro lado que essa ponte aqui não estará.  Dizendo adeus.

Nunca podemos reclamar do nosso carma. Se é essa nossa reserva divina, então é essa nossa reserva divina. Deus jamais disse que algo seria fácil, disse que valeria a pena. Porém, difícil é enxergar que algum dia haverá alguma retribuição nessa vida por ter segurado a queda e ajudado tantas pessoas a atravessar até o outro lado. Lado que você não está. Pois minha posição é essa, ser a ponte. Ficar ali parado, esperando quem irá passar.

Nada nessa vida é explicável ou lógico. Não sabemos de absolutamente nada, somos apenas meros especuladores daquilo que achamos que estar por vir. Mas algo é certo: tudo segue uma linha de acordo com a missão que cada um de nós têm. Tudo está acontecendo por uma causa e um propósito, por aquela missão que temos nessa vida. E o que eu aprendi com a minha missão até hoje? Aprendi que a bondade não é lá algo que se dê muito valor. Ela, na visão das pessoas, deve ser subserviente, um esteio para aquele que atravessa seu momento difícil. Para que possa se curar e chegar seguro ao outro lado. E a grande maioria não entende isso. Não vai entender esse texto. Pois a grande maioria é caminho. Esse dom (ou castigo) vem para poucos, felizmente ou não.

O que fazer quando se tem a missão de ser ponte? Ser forte. Como? É problema de cada um que é ponte. Mas é difícil ser forte sempre. Ainda mais quando já se é uma ponte muito pisada, gasta... Cansada de ser ponte. É difícil dar todo o suporte e depois dizer adeus ainda desejando que quem você ajudou só encontre felicidade, pois a maldade jamais pode habitar o coração de quem nasceu para ajudar o próximo. Posso dizer que sou uma ponte querendo ser caminho. Querendo,  pois se minha missão é ser ponte, difícil vai ser que um dia eu seja caminho.
A felicidade de um só é alcançada às custas da tristeza do outro.
E isso é triste...

domingo, 17 de setembro de 2017

As mudanças que não se escondem

O partir, o deixar. A necessidade geográfica de se fixar não pode ser tomado como algo natural. Sempre ouvi dizer que nosso estado não depende do lugar em que estamos. Eu concordo parcialmente. O universo nos influencia, os lugares, as pessoas. Mas como dizia Sheakspeare, "nós somos responsáveis por nossas atitudes". Ou era isso ou algo parecido.

Fato é que não podemos responsabilizar o que fazemos por conta de lugares, pessoas ou situações. Mas isso não significa que não podemos aprender, ter novas experiências, mudar por conta dessas mesmas coisas. Há momentos em que sentimos que precisamos deixar coisas, momentos e até pessoas para trás. Há momentos em que o novo pede por nós. Há momentos que muitos nos chamarão de radicais, de loucos, de "mas você vai fazer isso logo agora"? Agora? Mas o que é o tempo? Se não mera relatividade da nossa consciência?

Mudar é preciso. Mudar não pára se mudar, mas sim porque outro novo nos espera. E esse novo não tem lugar fixo, ou hora marcada ou mesmo dia pra acontecer. Pode estar na esquina de casa, no trabalho, no hobbie que deixa de ser hobbie ou até mesmo em alguém. Não há regras para determinarmos quando e porquê temos que seguir o novo. Apenas sentimos que há um novo que nos espera. Apenas sentimos que temos que fazer aquilo. Nosso instinto grita, nos avisa, nos fala o que é para ser feito. A partir daí temos a escolha de seguir ou estagnar. Porém o tempo urge. A vida anda para frente, as coisas precisam se mover para dar continuidade a tudo isso que chamamos de vida.

Uma jornada louca que não sabemos como nem porquê começa e termina, mas sabemos que aqui temos que estar e dentro desse tempo realizar pequenas coisas, pequenas missões. Muitas vezes para nós mesmos, noutras para os outros e em outras para ambos. Em suma, podemos dizer que para realizar tais missões é preciso que deixemos o instinto nos dizer quando devemos fazer. O porquê talvez iremos saber ou não. Talvez até tenhamos que mudar para saber se há um porquê e qual a grandiosidade desse porquê.

O questionamento e o intenso perguntar de nossas mentes não é suficiente para responder às perguntas que o instinto traz as respostas. Nunca ignore algo tão forte que você simplesmente sinta, sem alguma explicação racional. Há coisas que sentimos que temos que fazer, conquistar, realizar ou até mesmo deixar. Mudar é uma delas. Mudar no sentido amplo, não de dentro para fora, mas também de fora para dentro.

Nem tudo é uma busca por respostas. Apesar dos inúmeros questionamentos que vamos ter durante a vida. Mas muitas coisas são apenas isso: instinto. Vá e realize isso. É a hora de fazer. Chegou a hora dessa mudança. Ninguém te diz, isso é apenas sentido. E meu amigo, quando isso ocorrer, não exite. Não se feche em um mundo, uma situação, uma rotina ou um lugar. Mudança engloba tudo e se há algo que você não sabe explicar que te empurra para fazer, faça. Não ignore seus instintos de mudança. Não ignore quando sentir que precisa realizar algo.

A vida por vezes nos diz coisas sem dizer. Nos dá lições sem ensinar. Nos faz mudar sem querer mudar. Por vezes somente é preciso fazer aquilo, é preciso realizar, sem nenhuma explicação racional. A vida, por vezes, nos faz mudar por muitas vidas. Faz-nos realizar algo que em muitas vidas devíamos realizar e por algum motivo não fizemos. Portanto, apenas siga.

Como muito bem escreveu Milton Nascimento:
"Sei que nada será como está
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol".

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Bons valores, falsa prática

Dia desses me peguei lendo umas frases numa rede social. Acho incrível como as pessoas são boas por lá. Há, na verdade, um lado positivo nisso tudo: um culto a valores positivos de fato. Porém, existem quilos de hipocrisia por trás do discurso fofo, sensato e bonzinho..

Sempre vejo essas postagens de pessoas falando sobre si, "simplicidade é tudo", "o valor está nas pequenas coisas", mas quando chega a hora prática, de vermos o exercício desses valores, são eles suprimidos por toneladas de ostentação: "melhor lugar", "top" e afins. Vale a pergunta: onde foi parar "simplicidade é tudo"?

Não, não é uma crítica pelo modo como você gasta seu dinheiro. Desfaça-se da materialidade e tente me acompanhar. O ponto aqui é como existe uma distância quilométrica entre os supostos valores que parte da sociedade prega e o agir de fato. Sim, pois não basta ser o boa praça do discurso bonito, o militante com a ideologia "perfeita", o experiente que pra tudo tem uma solução bonita e indolor. Definitivamente, não. É preciso ir além do discurso na rede social. É muito bonito e politicamente correto achar a simplicidade, as pequenas coisas, as pequenas atitudes e blá blá blá como o ideal que cada ser humano deveria cultivar (e exercitar) em seu convívio social, no seu dia-a-dia. Também é legal quando você prega esses valores na rede social e recebe inúmeras curtidas, afinal, "tô sendo amado pois sou positivo". Mas, e aí? E a prática? Ser humilde é bom ou ser humilde é bonito?

Praticar está muito longe de apenas reconhecer valores como corretos ou mesmo como socialmente aceitáveis para que você se torne uma pessoa amada por todos. E tirando da minha experiência eu digo que 90% dos casos se resume a isso: conquistar um status social do politicamente correto e bom ser humano, que tudo de frágil e simples se protege e valoriza. Sem essa! O que mais se vê é o contrário: o culto a tais valores e as atitudes inversas a eles. Talvez seja uma forma que cada um encontra de mascarar os valores que estão atrelados às suas atitudes. Talvez seja uma maneira de tentar se tornar mais suportável, não ter que lidar com a realidade suja de si mesmo. Todos temos monstros que nos habitam, e fazemos frequentemente o processo de transferência do nosso lado negativo (e até mesmo do positivo). Acabamos projetando o que não gostamos no amigo, no vizinho chato, no professor e em qualquer um que a gente ache digno de receber aquilo que não gostamos em nós mesmos.

Com o advento e o boom da internet, talvez essa seja uma nova forma. Não de transferência, mas sim de enaltecer certos valores positivos para não se ter que lidar com a realidade do próprio "eu." Como bem disse Sartre, nós não fazemos aquilo que queremos, porém somos responsáveis pelo que somos. Pregar valores que não se pratica pode ser a nova forma de não ter que lidar com aquilo que se é realmente. Com o lado que somos, mas não gostamos de ser. Na minha opinião isso denota fraqueza. Todos somos iguais, todos dotados de defeitos e qualidades. Encarar nosso pior lado é, muitas vezes, positivo. Ser o cara legal, que tudo acerta e que sempre está disposto a "ser humilde" é o ideal que talvez ainda não chegamos, e é muito provável que nem iremos chegar. Provavelmente essa frustração traga isso: "se eu não chegarei lá, preciso pelo menos pregar isso."

Parece mesmo é que essa falsa pregação de valores... Melhor, esse culto de valores inversos àquilo que é praticado se tornou um vírus social, uma doença social onde só o gramado da própria casa é verde, esquecendo-se da realidade chocante do restante do mundo. "Cabe e é válido mostrar ao mundo minha benevolência, mesmo que por trás eu seja um tirano". Mas talvez, como eu disse, isso traga paz a esse indivíduos tão consumidos pela ansiedade na infinita busca por algo que os realize, que nem eles mesmos sabem o que é. Talvez a paz venha daí: de cultuar os ideais que não conseguiremos atingir.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A Latrina Argumentativa de Parte da Sociedade


Voltando depois de muito tempo, vou ver se dou uma mudada nessa bagaça e agito mais isso aqui.
Mas hoje é hora de falar o que veio se criando por alguns anos e está mais proliferado: a má consciência política/social de parte da sociedade.

As manifestações de 2013 foram uma espécie de marco pro povo acordar para aquilo que está errado em nosso país. Acordou, mas parece ainda estar descansando. O gigante se levantou, mas anda meio preguiçoso... Porém, pior do que estar preguiçoso é aquela parcela que não faz parte do gigante (por opção, muitas vezes) e prefere se manter no conforto da inércia, disparando críticas e mais críticas e... Pera... Não, é isso mesmo. Só dispara críticas.
Que parte é essa do povo que se sente tão importante, mas se mexe muito pouco para mudar algo? Que parte é essa que acha que compartilhando suas críticas em redes sociais estão ajudando? Respondo: essa parte provém de várias classes e ideologias, mas tem em comum algo: criticam, e ponto. E dessa forma, nada ajudam a construir.

Na verdade, uma parcela da sociedade acordou, outra não, mas optou por seguir um rebanho. Temos dois rebanhos no Brasil: um que anda no lado esquerdo e outro no direito. Eles, por vezes, até estão de mãos dadas, mas vivem brigando. Pois bem, assim se fez a divisão (estúpida) e assim muitos optaram pelo lado do rebanho a seguir. Então, para seguir, tiveram que colocar viseiras laterais, e hoje, tais ovelhas só conseguem enxergar o que há na frente. Não foram adestradas a olhar pros lados... Na verdade, foram impedidas por si próprias, pois optaram em pôr tais viseiras.

Saber ponderar e reconhecer que os dois lados do rebanho fazem coisas positivas e negativas é o mínimo da coerência. Mas, não. Valores foram invertidos e o errado passou a ser defendido, por ambos os lados. A ideia de país, de nação, se perdeu. Há agora os que defendem seus lados e o Brasil permanece esquecido. Viramos um grande palco do "qual lado está mais certo", e o povo, vez ou outra, mostra sua unanimidade, fazendo com que os bobos da côrte aplaudam a vitória do seu lado. Mas nunca é uma vitória, pois o lado que perdeu jamais assume a derrota. O que ele faz? Isso mesmo. Se há perspicácia da sua parte você já sacou: defende o errado, mesmo sendo errado, mesmo sendo absurdo, criam-se argumentos para que o errado vire certo. São verdadeiros bobos da côrte, ovelhas dando show a seus pastores (que mal sabem que elas existem).

Ah, sim, vocês querem os exemplos práticos. E como eu gosto de polêmica (e prevejo muitos chororôs após esse post) vou logo dar nome aos bois, melhor, as ovelhas.

1 - Ano passado, em Cariacica (ES), um servidor da PM, membro do BME, foi morto em uma troca de tiros, no dia sete de setembro. Arranjaram um culpado, menor, e até campanha para redução da maioridade penal houve. Bradou-se facebooks afora o tamanho absurdo. Porém, a perícia conclui que a bala que tirou a vida do soldado partiu da própria polícia. Calou-se, facebooks afora. Além de calar, os poucos que debateram, de alguma forma, tentaram culpabilizar o rapaz que não matou ninguém, mesmo havendo laudo pericial da própria polícia dizendo que não foi ele. Já deu para sacar aquela coisa de defender o errado, né?

2 - Jair Bolsonaro (sim, ele mesmo), dentre suas toscas afirmações, já criticou e muito todo o gasto excessivo do governo. Criticou a quantidade de dinheiro que se gasta na Administração Pública e não, nisso ele não está errado. Mas, SEMPRE (isso, sempre, toda vez) ele vota a favor do aumento salarial para deputados federais, presidente, ministros, etc. Ué, mas e defender "gastar menos"? Juntando o gasto do Senado e Câmara Federal, gasta-se por volta de 1 bilhão de reais por ano. Isso mesmo, o cara que defende menor gasto parece não se importar com esse valor e com os 144 mil reais (aprox.) por mês que ele despende ao Estado. Seus eleitores se importam com isso? Parece que não. Há necessidade de termos 513 deputados para legislar? Acho que resposta é bem óbvia. Se com esse número fazem cagadas atrás de cagadas, o ideal seria reduzir. Mas, seu rebanho parece bater palma para as suas afirmações morais e espalham por aí a política do neo idiotismo. E defender redução dos gastos públicos diminuindo os salários e benefícios dos deputados? Não falam sobre isso.

3 - Um dos mais graves problemas do brasileiro é conhecer política lendo os canais mais desconfiáveis da internet. As redes sociais ajudam nesse processo, pois muitas afirmações são manipuladas ou usadas de forma errônea. Nessa esteira criou-se a generalização emburrecida. "Eu sou favor da ditadura e bandido bom é bandido morto", disse uma ovelha da direita. "Mas, de repente, podemos ver outras soluções menos radicais..." disse alguém mais sensato. "Você é um porco, defensor de bandidos, socialista-comunista-satanista-terrorista-esquerdista (e mais alguns adjetivos com sufixo "ista") e não sabe porra nenhuma!" Esperneou a ovelha da direita. Ou seja, tal fenômeno é: "se pensar diferente de mim, você é um idiota, pois o céu está azul mas eu quero que esteja roxo e você não pode dizer que ele está azul."

4 - A falta de capacidade racional para analisar as situações políticas e os argumentos com quem se debate. Falta uma análise lógica dos fatos por parte do brasileiro. Algo pautado no racional. Parece que houve uma mistura com as convicções pessoais daqueles que criticam, tornando-se algo que deveria ser lógico e racional, subjetivo, dando esse "poder julgador" da moral alheia, deixando esquecido aquilo que mais importa.
Tal problema parece crônico. Não importa o quanto você fale, não importa  o quanto gaste seu latim, a resposta será só uma: "hahaha, você não sabe nada." Para as ovelhas do pastor Bolsonaro se ouve até menos, algo tipo "bolsomito", "bolsonaro presidente", etc. São como pokémons, falam mais que o próprio nome, mas poucas palavras só. Nesse quesito dá pra ver, claramente, que o importante não é brigar por aquilo que é melhor ao país, pelo interesse público. Dá pra ver que o legal é alimentar essa guerra burra de lados. Uma guerrinha puramente moral, sem sentido, onde cada um só quer ganhar batalhas, pois o legal é eu ter o argumento melhor que o dele.

E pra piorar tudo isso, aconteceram as eleições. E o pós eleição parece estar sendo muito pior. A burrice parece estar chegando a níveis além humanos. Um exemplo? A violência assola o Rio de Janeiro. Desde muito tempo. E eu ouço coisas como: "culpa da Dilma." Ok, a Dilma tem muita culpa em diversas situações ruins no nosso país. Mas, segurança? Até certo ponto tem a ver, depois, não. E o ponto principal (gerir e prover a segurança) é responsabilidade do governo do estado. Porém, ninguém cita o atual governador Pezão. Incoerência? E quanta! Aí essas ovelhas que agora leem isso, já estão me taxando em suas mentes rasas de "defensor do PT." Isso, sem sequer me conhecer ou procurar saber de fato o que realmente penso politicamente ("fenômeno da generalização"). Prevenindo esse problema, ouça: não sou o pastor de vocês, mas, acreditem, não defendo o PT. "Béééééé! Bééééééé!" Bradou a ovelha ao ler minha frase.

Citei quatro, mas há inúmeras "desqualdiades" que são, infelizmente, pensadas, abraçadas e proliferadas Brasil afora. Infelizmente o brasileiro não adquiriu consciência social, a capacidade de debater, de fato, soluções. O brasileiro quer debater moral, pra apontar para a sua e dizer que é um lixo, mesmo que o conceito de moral seja subjetivo. Ou seja, o brasileiro gosta de julgar.
E quando digo consciência social é no sentido de ser consciente do que acontece em nossa sociedade, aquilo que deve ser mudado e como deve. Vejo por aí pessoas com ideologias neo-liberais que vivem cobrando o Estado. Ora, se você defende um "cada um por si" e uma economia livre, como pode cobrar do Estado? Como pode apontar tanto o dedo para o Estado ao invés de ir fazer o seu "cada um por si", com sua ideologia de livre iniciativa e meritocracia? É muita incoerência. É muita hipocrisia e muita falsidade ideológica, ideologia que só existe na teoria, mas no aperto, sempre gritam, "Estado, vem me salvar!" Eu apoio a ideia de maior responsabilidade estatal contrabalanceando com menor taxação para o empresariado e estimulação de mercado (não vou esmiuçar agora). Mas não apoio o estado mínimo.

Essa é uma crítica puramente moral, é o exercício daquilo que os "politizados" contemporâneos gostam de fazer. Uma observação sobre uma mudança nada positiva quanto a visão social que muitas pessoas têm hoje em dia, muitas delas se colocando contra o Estado, mas em manifestação que pleiteiam diminuição de tarifa de transporte, por exemplo, se colocam ao lado do Estado (geralmente representado pela polícia nesses eventos) e acham errado ir as ruas para pedir que algo que não se concorda seja revisto. Novamente: é muita incoerência. Acham legal pagar altas tarifas.

Por fim, deixo meus pêsames e torço, de verdade, pra que essas ovelhas retirem as viseiras e possam enxergar além de suas convicções tão "certas e perfeitas." Até culpar quem votou no PT eles culpam, acreditem! Mas gritam por aí que votaram no PSDB, partido mais corrupto do Brasil.

Como eu digo, triste. Ignorante e triste.








Fontes de pesquisa: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2015/01/noticias/cidades/3886884-soldado-feu-foi-morto-por-colega-de-farda-conclui-a-policia-civil.html

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/deputado-e-senador-custam-mais-de-r-1-bi-por-ano/

http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/blog/2014/09/26/justica-eleitoral-confere-titulo-inedito-ao-psdb-o-partido-mais-corrupto-do-brasil/


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O 4° poder: a mídia.



Muito se fala e muito se acontece. Posse de um homem no mínimo duvidoso para presidir o Senado, carnavais que correram soltos Brasil afora, mas talvez agora a vida comece no país.
Ainda sou daqueles que sente o ano chegar só depois de fevereiro. E, de certa forma, não estaria 100% errado.

Vimos um ano de eleição passar e acompanhamos, de novo, a mesma linha do pensar e agir do brasileiro. Eu sempre sinto certa esperança e fico no puro achismo de que outros, talvez mais conscientizados socialmente, não se ponham somente a criticar, mas, bem como, a dar vida a uma práxis um tanto falida na seara da mudança social.

Vimos (o que novidade não é) que tais poderes e suas respectivas presidências são consequências de escolhas pautadas em uma certa alienação já bem alimentada não só pela mídia, mas corroborada pelo "Estado". O interesse de que não haja posição contestadora por conta da massa contribuinte é um tanto válida na esteira do pensamento coronéico brasileiro.

Porém, tal diálogo se torna um tanto inútil sem deixar de mencionar um dos quatro poderes do Brasil: a imprensa. A mesma que, convenientemente horroriza quando bem quer, é também aquela que injeta doses cavalares de banalização do tudo, e torna a vida um tanto supérflua, onde tudo vira piada, chacota, etc.

Sim, essa posição é ruim. O pensamento disseminado entre as massas seguidas pela caixa (tv) que todo brasileiro se orgulha de ter em casa (principalmente em grandes polegadas e feita de plasma), infelizmente forma opiniões e até determina valores morais numa sociedade perdida pelo descaso e falta de compromisso do, novamente entre aspas, "Estado". Uma sociedade sobrepujada de consumismo, que compra, assiste, dorme e trabalha.

Vi dia desses um depoimento do ator Wagner Moura, onde conta um episodio ocorrido com ele e o famigerado Pânico Na TV. Não digo que eu seja pautado pelo ator como formador de opinião, porém são perceptíveis muitos dos argumentos usados por ele, pondo em xeque o próprio trabalho que deveria ser jornalístico, mas geralmente serve pra alimentar ilusões nos lares brasileiros. E ainda vemos estes mesmos que autodenominam imprensa, muitas vezes bradar pela chamada liberdade de imprensa, quando nem mesmo representam o papel que esta deveria cumprir. Não, a imprensa não cumpre fielmente seu papel, pois está também inclusa na seara política. E esse talvez seja um dos maiores desastres dos últimos tempos: tudo se tornou político demais. Os comportamentos exibidos por senhores de terno e gravata (vossas excelências da vida), que de dois em dois anos se põem a juntar-se a plebe para angariar votos, estendem-se a outros ramos, áreas, e tudo no final se torna um grande jogo de interesses. A isso, damos o nome de Brasil.

E como já costumo dizer, a crítica pela crítica nada faz. A reflexão sem ação te torna um sujeito consciente. E ponto. Ter a consciência de agir para determinar outros rumos à vida ou enxergar que certos valores devem ser preservados, é o primeiro passo para que algo dê certo. Não me ponho num papel de cobrar tal posição. Sou sociedade, também faço parte. Não concordando, penso e ajo. E como gostaria que todos compreendessem a lógica do fazer.

Por isso digo que o Brasil é um país 50 x 50. Metade é responsabilidade dos que já galgaram degraus até o Poder Público e lá estão, e a outra metade é daqueles que botam esses senhores lá. Muitas vezes esses que tem a responsabilidade de construir degraus pra que estes senhores, famintos pelo poder público, cheguem lá, também se põem a entrar na brincadeira e construir sua própria escada, chegando, se não em altos cargos, próximo a eles. E é aí que o jogo da politicagem começa, onde tudo pode ser feito sem que jamais seja contestado ou pensado por parte dos que formam nossa sociedade. Onde toda atrocidade vira "normal".

A inércia do brasileiro é um câncer que tem cura, mas que dá muita preguiça ao paciente querer tratá-lo. Carnavais, copas e olimpíadas da vida, servem como pano de fundo para desvirtuar a atenção de todos os absurdos que ocorrem, muitas das vezes, nas portas de suas casas, além de encher muitos bolsos Rio de Janeiro a fora.
Como bem criada a expressão pelo poeta Juvenal, segue a política do panem et circenses. E não muito diferente do que era feito no império romano, no Brasil a mídia se incumbe de disseminar os Big Brothers da vida para "entreter" com banhos de "cultura" nossa sociedade. Frases de Pedro Bial (geralmente pobres e demagogas) ditas a milhões como se fossem injeções culturais. Observações sobre um programa que visa somente exercitar a (pouca) moral do telespectador e seus juízos de valores, sem que nada acrescente. Observar os outros e esquecer de si. Triste... Não há que se falar em nível, pois não é possível que se meça este em um programa como tal. E lá, são jogados à sociedade com o nome de heróis. Triste e bizarro.

BBB, Panico na TV, TV Fama e outras opções tão instrutivas que a mídia aberta oferece, são também responsáveis por continuar o giro da máquina alienatória, da alienação em massa que é feita em larga escala. Isso, juntado a um empobrecimento e desvalorização frequente no mercado de trabalho em várias profissões, fazendo de fato maior parte da população como burro de carga, se torna um desastre. Cursos universitários praticamente vendidos por instituições que mal se dignam de oferecer professores qualificados. Ensino médio e fundamental público com sistemas onde não há reprovação, tratando aquele que estuda como um "problema" passageiro para o "Estado". Mas esses são assuntos pra outro post.

No mais, nos contentemos (não este que vos escreve) em observar como esse processo de empobrecimento cultural e populismo exacerbado segue firme, carregando multidões consigo e pormenorizando qualquer tipo de valor ético, moral ou social que devesse haver em uma sociedade.

O Brasil ainda não é um país de fato, é um país de direito. É mais como um projeto de país.
Um dia, quem sabe, se chega lá.


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Pra "boi dormir" ou "inglês ver."



Mais um período vem aí. Mais uma época de eleições municipais. Os candidatos mudam, ou não, mas grande parcela da população permanece a mesma. Mesma no sentido de ser a mesma, não de estar. E ser a mesma no sentido de ter as mesmas atitudes.

Ok, não posso deixar de reconhecer que, mesmo tímida, há uma certa evolução no comportamento político do brasileiro. Este, pelo menos onde pude constatar, se mostra mais conscientizado e ciente de certos problemas. Porém, a velha política ainda impera.

Aquela que compra sua militância, que paga pra ser adorada, que tem um discurso publicitário de democracia, mas que se move pela demagogia. Os churrascos, favores, cargos em comissão e demais "benefícios", ainda são distribuídos aos montes. Tudo em troca de mais votos, mais pessoas que possam aderir a um projeto pra beneficiar poucos, fincado na conquista de um poder sujo que visa exaltar interesses privados daqueles (empresas de diversos ramos) que "ajudam" nessa "conquista", em troca de futuros favorecimentos, quando estas figuras "coronéicas" chegarem ao poder.

Vislumbra-se tal situação em diversos lugares de nosso país. Nossa democracia, que jamais democracia de fato, foi, parece mais decadente e corrompida do que há tempos não se via. Uma democracia que tem preço, literalmente, mas que não corresponde ao valor pago.

Compra de votos é algo comum e sabido. Porém, não se pode deixar de ressaltar a grande parcela de responsabilidade da sociedade nesse processo paranoico da política. Quase todo brasileiro é muito ágil em tecer críticas (como este que vos escreve) a toda problemática deste meio sujo da política nacional e o que os detentores de cargos eletivos fazem com seus mandatos. De uma perspicácia incrível, o brasileiro tem a capacidade de enxergar as verdades mais esdrúxulas de todas as vossas excelências, mas também tem uma capacidade de anuir, quando lhes convém (não mais incluam esse que vos escreve), com todas as práticas que teoricamente condena. Pior: ainda existem aqueles que criticam, entubam toda a classe política no mesmo saco, bradam por democracia, mas dizem votar sempre nulo sem sequer procurar saber sobre candidatos, propostas, ideias e todas as coisas que tanto dizem ser escassas.
Há ainda aqueles que partilham de práticas de vandalismo, com materiais físicos de propaganda política, achando, em suas restritas mentes, que estariam fazendo algum bem ou mesmo contribuindo com a sociedade. Pois não estão.

No meio dessa miscelânea, a democracia ficou perdida. No meio dos hipócritas/críticos/pseudo-intelectuais/revoltados de shopping centers, ela não sabe mais onde se achar. Não há valor ou mesmo princípios que possam manter alguma democracia neste meio bagunçado. Não há com quem caminhar para uma real solução que ela possa agir e se fazer de fato, democrática, salvo raríssimas exceções.
Todos culpam o Estado, mas esquecem que fazem parte dele. Como se diz no popular, sabem muito bem ser pedra, mas esquecem que também são vidro. Todos são ótimos entendedores dos problemas do Brasil e todos têm as soluções mágicas, mas, ninguém quer por a mão na massa. É a velha ladainha do "resolve aí", coisa que o brasileiro entende muito bem.

A lei é válida, mas pra mim, a meu favor. E clamo pelo direito do contraditório quando a lei vem contra mim. "Democratas" hipócritas.

E nisso, mais detentores de poder se definirão, fazendo jus às práticas mais sujas, comprando, corrompendo e atropelando qualquer tipo de valor ético para alcançar o primeiro lugar do pódio. Serão mais quatro anos de reclamações, indignações e, depois disso, os problemas sumirão, todos tentarão se beneficiar novamente e o novo ciclo de má gestão, legislaturas, corrupção e afins, começará, pra que todo brasileiro possa exercer seu direito de crítica e se fazer valer de um falso moralismo, enfiado goela abaixo em suas mentes por um Estado que não pensa mais em ser Estado, mas sim um grande balcão de negócios, onde se fazem copas, olimpíadas e onde se deixa os direitos mais básicos a míngua, pondo a pá de cal naquilo que se chama de dignidade da pessoa humana.

Uma grande ditadura se dará início, novamente, e nós assistiremos todas as ações de um povo que se vende por pouco e políticos que se valem de explorar a miséria alheia pra conquista de um poder falso, entrar em ação.

Há solução? Há. Esta solução é pensar. Quando isso começar a ser feito, talvez tenhamos uma mudança real.
Revolução se faz de baixo pra cima. Se quisermos que algo mude, cabe a nós, primeiramente, começar a mudar.





sábado, 31 de dezembro de 2011

Mais um vem e vai...








Chega mais um, vai mais um... Tudo assim, muda o tempo todo. Todos se iludem que a troca de um número no calendário trará milhares de coisas e vidas novas, que a mágica ocorrerá.

O ser-humano pensa assim: sempre determinado a alcançar algo que ele mesmo não sabe o que é e que dá o nome de felicidade. Justa ou injusta, não importa, seu anseios superam qualquer coisa que se contraponha.
Fato é que, a mudança mais importante, aquela que pode fazer "mágicas" acontecerem, é a mudança de nós mesmos. A mudança e evolução das ideias. Pois de nada adianta mudar se for para piorar, a evolução deve ser algo inevitável.

No Brasil, isto parece inerte. Evoluir, mudar o pensamento, reeducar-se socialmente e até culturalmente. Basta o churrasco de domingo, o futebol na tv, fazer valer a lei para si próprio, e somente para si, e o resto pouco importa. Infelizmente não se tem a consciência de que cada um não é uma unidade individual e à parte de tudo, somente vivendo para si. Cada um de nós é um indivíduo, porém, compomos uma coletividade, e cada ação nossa reflete na vida de outrem. Enquanto não se adquirir essa consciência, enquanto todos continuarem vivendo seu individualismo egoísta, nada mudará.

E para piorar: parece que todo brasileiro já nasce com um conformismo genético. Vê-se de tudo: violência, corrupção, políticos rindo na cara de todos, mas, a maior atitude que se toma é sentar em frente a tv e criticar, dizer que está errado e bla bla bla. Mudança? Não, no Brasil não se faz mudança, se espera que ela aconteça. E pior: toda essa confiança é depositada nos políticos, sempre ávidos para ocupar cargos públicos por razões que eu de$conheço.

Mas quem sou eu pra apontar o problema desse país? Quem sou para julgar? Talvez ninguém, talvez, nem melhor nem pior, porém, com uma certeza: algo tem que mudar, e apesar de já ver mudanças, mesmo que lentas, é necessário que o brasileiro não apenas se conscientize do país em que vive e dos problemas que tem, mas sim, de que ELE deve fazer algo para mudar tal situação, e que sem sua mobilização, de nada adianta ser consciente ou se indignar. A indignação só é válida se for posta em prática. As ideias não funcionam se permanecerem apenas na cabeça.

Portanto, em 2012 não espere milagres, não prometa metas, não se imponha nada. Conscientize-se e mude. De nada vale um novo ano se as ideias forem velhas. De nada vale um pensamento, uma indignação, uma vontade se tudo ficar só nisso mesmo, só na vontade. E não pense que isso é algo que se vá fazer somente nas urnas. Nossa vida não é resumida nas urnas, as coisas não começam e terminam lá. Quer "vencer" o sistema? Conheça-o, estude-o e depois use-o contra ele próprio.

Há uma teoria de que, na verdade, 2012 não será o fim do mundo, mas será um ano de profunda mudança social (mundial) e de uma catástrofe ambiental sem precedentes. Espero que seja verdade em parte, pelo menos se a tal mudança for positiva. Quanto a catástrofe ambiental, aí já é assunto pra outro post...

Por fim, desejo a todos um 2012 melhor, e que cada um possa encontrar tudo o que citei acima, que cada um cada vez mais adquira a condição de fazer as coisas acontecerem. Não é um partido político que muda um país, mas, um povo. Se não pensarmos assim, tudo continuará como está... Infelizmente.